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Pomerode
domingo, 29 de maio de 2022

De Escola Alemã de Alto Rio do Testo para Escola Básica Municipal Dr. Amadeu da Luz: 150 anos de legado

Por Genemir Raduenz, Edson Klemann, Johan Ditmar Strelow e Cláudio Werling

Para o imigrante, a escola sempre foi uma prioridade, provavelmente ele compreendia que essa era uma das principais atitudes que poderiam melhorar as condições de vida das próximas gerações. Nada fácil compreender como sobreviveram nas primeiras décadas, sendo prioridade o alimento no meio de um ambiente hostil.

Toda a assistência de que necessitavam, praticamente tinha que sair de seus próprios esforços, como superar doenças, instituir a cultura da criação de animais e as primeiras lavouras.

Os primeiros imigrantes chegam ao Vale do Rio do Testo (Pomerode) por volta de 1862 na localidade de Testo Central. Ano a ano mais imigrantes chegam (predominantemente Pomeranos), e vão se assentando “subindo o rio” no sentido Blumenau/Pomerode. Em especial, no ano de 1868, chega o maior contingente de imigrantes e sua maioria se instala na localidade de Alto Rio do Testo (atualmente Testo Alto). As famílias chegam ao Vale do Rio do Testo e ocupavam os lotes de terras disponíveis, avançando cada vez mais em direção as nascentes do Rio e seus afluentes. A localidade de Alto Rio do Testo começou a ser povoada no lado direito do Rio, considerando a perspectiva no sentido nascente/foz, e, conforme pesquisas realizadas pelo grupo Pomeranos no Vale Europeu, inúmeras famílias assentadas nesta localidade chegaram nos veleiros Lord Brougham e Franklin. Desde a saída das vilas na Pomerânia, até o tão esperado lote comprado no Stadplatz Blumenau, o caminho foi longo e incerto. Com as primeiras picadas ao longo do leito do rio e ribeirões, surge na então localidade Alto Rio do Testo, pelo lado direito do rio, o conhecido “lado pequeno”, atualmente denominado de Rua Progresso.

A escolha ou identificação do lote adquirido, era uma das primeiras missões, e assim, estabelecer o primeiro abrigo provisório denominado de Hütten (cabanas de “pau a pique” cobertas com folhas de palmeira). Em seguida, acomodar a família, que até então aguardava no “Rancho dos Imigrantes” no Stadplatz Blumenau. Muitos partiam da Europa com seus conterrâneos, como parentes e amigos já conhecidos na velha pátria. E isso foi determinante para empreender o espírito cooperativo “no meio do nada”. Os imigrantes que já estavam instalados, ajudavam os que chegavam na limpeza dos seus lotes, na construção das cabanas, no plantio das primeiras “roças” e auxiliavam no relato das experiências já adquiridas, pois o clima, a comida, as doenças, e o ambiente selvagem era árduo. Sanadas as primeiras necessidades (comida e abrigo), a fé e a educação passam a fazer parte da prioridade, foram surgindo as associações escolares e religiosas mobilizadas em mutirão. E nesse aspecto, cabe destacar a relevância da Escola Básica Dr. Amadeu da Luz de Testo Alto na história da educação em Pomerode.

Os imigrantes estabelecidos nesta localidade, começaram a se organizar dando origem a primeira escola naquela região, surgia a Associação Escolar. O Sr. Wendeburg concordou em vender o lote de terras de número 134, então localizado na margem direita do Rio do Testo, com 100 morgos e possuindo boa terra (Um morgo equivale a 2.500 metros quadrados). Assim, no ano de 1871 se estabelece o marco de fundação da Escola Alemã de Alto Rio do Testo. O primeiro abrigo da escola foi uma “cabana feita de palmitos”, mais tarde, os moradores da localidade de Rega se uniram aos de Alto Rio do Testo. Uma nova casa em enxaimel com paredes de barro foi construída. Como a escola foi fundada pouco tempo depois dos primeiros assentamentos de imigrantes na região, os fundadores da Escola Alemã de Alto Rio do Testo são imigrantes pioneiros.

O caderno “Pomerode sua História, sua Cultura e suas Tradições” no fascículo 05 de 1991, destaca esses fundadores: Johann Kiekhoefel, Gustav Dallmann, Wilhelm Krahn, Wilhelm Borchardt, Heinrich Krüger, Albert Wachholz, Karl Ramlow, Karl Krueger, Wilhelm Prahl, Friedrich Schade, Albert Krüger, Wilhelm Trettin, Wilhelm Ziemer, Wilhelm Peter, Karl Döge, Ferdinand Malon, August Lach, Karl Riebe, Wilhelm Riemer, Gustav Lach, Johann Jandre, Friedrich Klemann, Ferdinand Ramthun, Karl Hornburg, Karl Zastrow, Friedrich Achterberg, Ferdinand Hornburg, Ferdinand Gustmann, Wilhelm Gustmann, Karl Siewerdt, Wilhem Lemke, Friedrich Schumann, Wilhelm Holz, Hermann Nienow, Wilhlem Winkler, Friedrich Radtke e Ferdinand Dallmann.

A grande maioria destes imigrantes são provenientes da Pomerânia, predominantemente dos Kreis (condados) de Naugard, Regenwalde e Belgard e chegaram por aqui no ano de 1868 e 1869.

Entre as pioneiras de Pomerode, a escola Dr. Amadeu da Luz também apresenta professores que se engajaram de forma pioneira nos primeiros passos da educação em nosso município.

O primeiro professor foi Friedrich Schümann que nasceu em 01 de outubro de 1836 em Hohenwestedt, Schleswig Holstein (Norte da Alemanha). Lá estudou no ginásio superior, prestando seus exames com o Bispo Koopmann, se formando como professor. Antes do professor Schümann emigrar para o Brasil, residia na vila de Kattbeck que também ficava em Schleswig Holstein. Chegou no Brasil com a esposa Margaretha Schümann e a filha Christine. Partiram do porto de Hamburgo em 09 de Abril de 1870 com o Veleiro Franklin guiado pelo capitão Busch e pela Companhia de imigração Luis Knorr & Co, com destino a Dona Francisca (SC). Friedrich Schümann atuou na escola de 1871 até outubro de 1881.

A escola foi fundada pelos moradores da parte superior do Testo no ano de 1871, tendo como primeiro professor o Sr. Friedrich Schümann/ Foto: Divulgação

O início foi bem desafiador, considerando que não havia assistência do governo para as escolas/associações comunitárias. O sustento do professor e da estrutura da escola tinha que ser provida pelos membros da comunidade. Pagar o salário do professor era primordial para que os filhos pudessem começar a ter acesso aos estudos. Nos núcleos que iam se formando nas localidades do Vale do Rio do Testo, a escola era o primeiro passo, e nela, também iniciavam formalmente a confissão da fé, sempre Luterana. Desta forma, na localidade do Alto Rio do Testo, no início, os cultos eram realizados na estrutura da escola uma vez por mês. No ano de 1886, motivados pelo Pastor Runte, a comunidade constrói no mesmo terreno uma igreja de alvenaria com uma pequena torre de madeira e dois sinos, anexo também foi estabelecido o primeiro cemitério.

Em 1887, a comunidade escolar troca as paredes de barro da escola por paredes de tijolos, considerando que a estrutura era na técnica construtiva enxaimel (em janeiro daquele ano, foram matriculados 76 crianças).

Posteriormente ao pioneirismo do professor Schümann na localidade, os seguintes professores atuaram na então Alto Rio do Testo: Johann Schlüter (de 1881 até abril de 1884), Albert Ziehsdorff (de 1884 até data não identificada), Professor Bagt (sem maiores informações), Carl Krueger (abril de 1893 até 1898), August von Frantenburg (fevereiro de 1898 até setembro de 1898) e Christian Frahm (20 de outubro de 1898 até 1925). Sobre o professor Albert Ziehlsdorff, cabe destacar que fora casado com Mathilde Trettin Ziehlsdorff e se mudou posteriormente para localidade de Itoupava Rega, inclusive está sepultado no cemitério Itoupava Rega I. Por sua vez, o professor Christian Frahm está na lembrança da comunidade até os dias de hoje. Natural de Lübeck (atual Alemanha), nasceu em 1864 e seu nome de batismo é Christian Johanes Friedrich Frahm. Emigrou para o Brasil em meados de 1882 e se casou com Otília Stanke (natural de Warnow/Indaial). Permaneceu por 03 anos em Indaial exercendo atividades comerciais e sendo professor. Mais tarde, se deslocou com a família para Pomerode e continuou exercendo a atividade de professor lecionando para duas turmas, uma em Testo Alto e a outra na localidade de Wunderwald. Se dedicou ao magistério até seus últimos dias de vida, exercendo a atividade por 27 anos em Pomerode, aliado aos 03 anos no Warnow, lecionou por 30 anos em terras brasileiras. Um aspecto importante do professor Frahm é o fato de manter em sua residência uma farmácia homeopática, o material e as essências necessárias para essa atividade ele importava da Alemanha.

A farmácia não visava lucro, mas sim, ser uma alternativa que beneficiava toda a comunidade da região. Em muitas situações o professor Frahm deixava de lecionar para atender os doentes em sua farmácia. Faleceu em 28 de Janeiro de 1925, tendo lecionado para várias gerações, pais e filhos tiveram o mesmo professor. Seguido do professor Christian Frahm, lecionou por um período de três meses o professor Rudolfo Hasse de Ribeirão Wunderwald, sendo substituído em definitivo por seu irmão, professor Emil Hasse que permaneceu até maio de 1931. Posteriormente assumiu Fritz Probst que atuou até 1938. Em 1939 por alguns meses a escola teve como professor Leopoldo Wachholz que foi exonerado em virtude da 2ª Guerra Mundial, ocorrendo o fechamento de todas as Escolas Particulares Alemãs (período da Nacionalização).

Como consequência, foram introduzidos professores que lecionavam em português, assumiu então a professora Gertrudes Soares de Blumenau, que permaneceu até o final do ano de 1939. Também nesta ocasião a escola foi transformada em municipal e renomeada para Dr. Amadeu da Luz. Durante o ano de 1940 lecionou a professora Joana de Conceição de Blumenau, que permaneceu até o final daquele ano letivo. De 1941 a 1943 a escola teve como professor Paschoal Deretti. Em 05 de maio de 1941 foi fundada a Associação de Pais e Professores (APP) denominada de Christian Frahm, uma homenagem ao professor que tanto marcou sua passagem pela comunidade. A partir de 1944 a função de professor foi ocupado por Rudolfo Hornburg, que havia sido transferido da Escola Municipal Bonifácio Cunha da localidade de Testo Alto II. Hornburg lecionou em dois turnos, tendo como professor auxiliar Hugo Frahm. O professor Hugo, um tempo depois foi substituído pelo professor Christian Frahm (neto do falecido Christian Frahm imigrante), que permaneceu como assistente até 1957 quando foi transferido para a Escola Municipal Bonifácio Cunha. Sua vaga foi ocupada pela professora Ursula Hornburg (filha do professor regente Rudolfo Hornburg) que exerceu a função de substituta até 1960, quando foi efetivada. O professor Rudolfo Hornburg se aposentou em 1968. Em 2 de janeiro de 1962 a escola na técnica construtiva enxaimel foi demolida e reconstruída pela comunidade em parceria com o Poder Público no governo de Arnoldo Hass, visando ampliação de salas de aula.

Festa escolar em 1924/ Foto: Divulgação

Em 1969, foi construída mais uma sala de aula na gestão do prefeito Mário Jung e vice-prefeito Rudolfo Hornburg. A partir do ano de 1969, em virtude da aposentadoria do professor Rudolfo Hornburg, a escola contou com o professor Hilário Greul, esposo da professora Ursula Hornburg Greul, que lecionaram até julho de 1975. Nesta ocasião, professor Greul formou duas turmas compostas de 55 alunos no curso supletivo do Mobral no período noturno. Greul teve que se ausentar em 1974, sendo substituído pela professora Elcina Wolter, que a partir de 1975 assumiu como regente exercendo a atividade até 1984.

No governo municipal do prefeito Eugênio Zimmer e Nelson Riemer em 1985, a escola foi transformada em Escola Básica Municipal Dr. Amadeu da Luz, assumindo como diretora Therezinha da Silva Batista. Ainda em 1985, foi inserido o ensino Pré-Escolar tendo à frente a professora Lilian Strobel.

Já no ano seguinte, em virtude do número elevado de alunos, ocorreu o desdobramento em Jardim e Pré-Escolar, funcionando em dois turnos e conduzido pela professora Simone Haut. Na gestão municipal de Zimmer/Riemer, também foi construída uma nova escola em novo endereço. A escola deixa de existir na rua Progresso onde nasceu, sendo instalada na Rua Hilda Augusta Guilhermina Volkmann, nº 400.

A nova escola foi erguida num terreno de 5.041 m² com arquitetura moderna e inaugurada oficialmente em 19 de outubro de 1986, num terreno doado por Oscar Volkmann. O antigo local da escola na rua Progresso, conectado a igreja, foi desativado e o terreno devolvido para a comunidade. Em 2009, na gestão municipal de Paulo Maurício Pizzolatti, foi implantado o ensino bilíngue (português/Alemão), projeto idealizado pelo prefeito anterior Ércio Kriek. Atualmente, mais de 305 alunos da escola frequentam o ensino bilíngue, da Educação Infantil ao 9º ano. Destes, 100 alunos frequentam o Ensino Bilíngue no período regular e demais no contraturno (período oposto) duas vezes por semana. A escola tem entre seus valores o zelo pelo bom ambiente pedagógico com foco no processo de ensino-aprendizagem.

Um belo exemplo de integração da comunidade na escola, é a atuação da APP (Associação de Pais e Professores), constantemente preocupada em poder oferecer o melhor para a comunidade. Entre as ações, está a realização anual da grande festa escolar que é a “Feijoada do Amadeu”, evento já tradicional no calendário do município. Nesse ano de celebração especial, serão promovidas muitas ações para evidenciar esses 150 anos de caminhada e relembrar as conquistas, bem como, oportunizar com atividades a integração de gerações que passaram pela escola. Ao edificar a primeira estrutura escolar em 1871 no Alto Rio do Testo, os imigrantes lançaram sementes num terreno que sabiam ser fértil, ano após ano, a escola acompanhou a evolução da comunidade trazendo prosperidade econômica e cultural, algo fácil de evidenciar ao conhecer a bela região de Testo Alto.

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