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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Entre os muros que só a paciência derruba e os laços que só a ternura constrói

Ralf e Darliane Beck compartilham a experiência de construir uma família por meio da adoção tardia

O encontro no corredor do Fórum não estava previsto. Houve o chamado período de namoro, preparação, dúvida, lágrimas, aproximação, a certeza de que a adoção era o caminho certo e a programação para oficializar a guarda para fins de adoção, mas o encontro no corredor? Esse não! Foi um capricho do destino, um presente e também um aviso de que, a partir daquele momento, as situações inesperadas seriam muitas, mas, juntos, superariam as adversidades para ser aquilo que os quatro corações haviam escolhido: família. 

A inspetora de qualidade Darliane Baehr Beck, 44 anos, e o assistente técnico Ralf Alexander R. L. Beck, 34 anos, conversaram muito sobre o assunto antes de definir o momento da entrada para o cadastro de pretendentes à adoção. Eles recordam que, durante os trâmites, um dos passos era a sinalização das características aceitas pelo casal, como a idade das crianças que pretendiam adotar. 

Era chegada a hora de realizar o curso preparatório. A conclusão e a consequente certificação ocorreram em agosto de 2019. Depois, chegou o convite para que fizessem parte do Grupo de Busca Ativa e, um dia após aceitar a proposta, as fotos de suas futuras filhas foram enviadas. “Ele bateu o olho nelas e pronto, eu sabia que se encantaria na hora. Em seguida, me enviou mensagem perguntando se eu tinha visto e respondi que elas eram adolescentes, tinham 13 e 15 anos, questionei se ele acreditava que daria certo”, relembra Darliane. 

Em resposta, Ralf argumentou haver uma possibilidade maior de conversar abertamente com adolescentes. Apenas mais um dia se passou até receberem o contato da Comarca de Campo Grande (MS) e precisarem tomar a decisão de levar adiante a intenção de adotar as meninas. O prazo para enviar a documentação era 19 de agosto. “Depois disso, iniciamos as conversas com elas por videochamada, monitoradas pelas responsáveis da casa de acolhimento”, conta Ralf. 

Os diálogos do casal com Valéria Aparecida Beck, hoje com 17 anos, e Kamila Cristina Beck, 15 anos, precisaram de um tempo para fluir. Mas um, em particular, precisou de poucas palavras para fazer todo o sentido. “Tínhamos que fazer uma ligação e não sabíamos o que dizer, então conversei com a Valéria primeiro e a escutei chorando, comecei a chorar também e só consegui perguntar ‘vamos formar uma família?’, ela respondeu ‘sim’”, confidencia Darliane com os olhos marejados e a voz embargada. 

Passaram-se três semanas até que o casal sentiu no coração a mais absoluta certeza de que aquelas eram suas filhas. O apoio com relação à decisão veio de toda família, que ajudou com roupas, conselhos e acolhida. Foi uma época de correria, principalmente para deixar os quartos das meninas prontos para recebê-las.  

Foto: Laura Sfreddo

O encontro entre pais e filhas estava previsto para ocorrer no Fórum, local que de fato ficou marcado na memória dos quatro de forma especial, não apenas por conta da passagem pelos trâmites necessários, mas, principalmente, por uma situação inusitada. O casal aguardava no corredor quando dois rostinhos, conhecidos por eles através das chamadas de vídeo, surgiram no corredor. Surpresa, Darliane segurou o braço de Ralf e observou as jovens se aproximarem, “mas elas passaram pela gente, até que a Valéria falou para a irmã: ‘Kamila, sua idiota, acho que são eles’”, conta a mãe em meio a risos e lágrimas. 

A emoção tomou conta de todos que estavam presentes. Nasceram naquele instante os primeiros abraços, afagos e momentos de ternura que se repetiriam tantas vezes dali em diante. Mas o início trouxe também turbulência. 

Deixar para trás o estado em que nasceram, a cultura que conheciam, o lar de acolhimento que havia se tornado uma casa, além de uma irmã mais jovem por parte de mãe que reside com familiares por parte de pai, fazia com que as jovens tivessem dúvida em seus corações. “No abrigo em que nós estávamos, eles me falaram que tinham pretendentes que queriam me adotar. No começo, eu não quis, mas depois eu aceitei a ideia, porque a Kamila conversou comigo e falou para tentarmos. Quando os conheci, fiquei emocionada por ter um pai e uma mãe, mas também com medo, com o passar do tempo eu fui conhecendo e passando a amá-los”, resume Valéria de forma tímida e profundamente sincera.

Após a saída do Fórum, como forma de adaptação, a família passou alguns dias em Campo Grande. Houve muitas lágrimas, receio, mas também persistência, paciência e imensa vontade de acolher. Foi nesse ambiente que Darliane experienciou um dos mais lindos momentos de sua vida. “Elas eram muito quietinhas até então, mas, de repente, a Kamila entrou na cozinha e disse: ‘mãe, tem água?’ Fiquei sem reação e respondi apontando ‘ali’. A palavra mãe tem algo de muito poderoso, houve um momento em que estávamos em grande dificuldade, a Valéria virou para mim e disse: ‘mãe, me ajuda, mãe, me ajuda’. O coração não consegue negar um pedido desses. Assim como a Kamila disse recentemente, não existem famílias perfeitas, todos passam por dificuldades”, confidencia. 

Para a chegada em Pomerode, os familiares e amigos prepararam uma grande recepção, mas as meninas logo se depararam com as diferenças culturais. Kamila conta que a comida e a música são as principais. “Na primeira vez que as levamos para uma festa de clube de caça e tiro, elas acharam um tédio”, diverte-se Ralf. 

​Não demorou muito para que absorvessem um pouco das tradições locais e, no ano seguinte à chegada em Santa Catarina, participaram, com traje típico e tudo, do desfile da Festa Pomerana. “E ficaram lindas, quando eu vi a Valéria de traje eu quase chorei, tive que disfarçar para não passar vergonha. Como é a minha cultura, ver elas assim é emocionante”, confessa a mãe. Ralf enaltece quanto o papel de pais os transformou. O principal ensinamento veio com a tarefa de ser responsável por outra pessoa e o quanto isso traz o senso de carregar consigo diariamente um objetivo maior de vida. 

Foto: Arquivo pessoal

Os obstáculos existem e um deles vem com o fato de as jovens serem negras. “Quando chegamos a algum lugar, as pessoas nos perguntam se são nossas filhas, então temos que explicar que são adotivas, mas não gosto disso, pois elas são simplesmente minhas filhas, nasceram do meu coração”. Diante das adversidades, a vontade e o amor surgem como fios condutores pelo caminho da superação. “Ter alguém para chamar de pai e mãe e contar com o apoio a qualquer momento é muito importante. Tudo é para que elas se sintam iguais aos outros, sem diferença nenhuma.”

E assim, com muito respeito, cumplicidade e aprendizado diário, comum a todas as relações de pais e filhos, independente do fato de terem nascido do ventre ou do coração, a família Beck escreve as páginas de sua linda história e ensina: “a adoção tardia precisa ser mais divulgada. Ela é uma grande lição de que o amor é algo que se constrói, foi um passo a passo que hoje me leva a dizer para as minhas filhas que elas realmente são tudo para mim”, conclui Darliane.

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